quarta-feira, julho 1

Pés descalços

Retiro as sandálias para ofertar as minhas palavras a esse centro de vontades que me habita. Conforme disseram, o coração é solo sagrado que se deve pisar com carinho. Antes de bater à porta, retire as sandálias e deixe-as à sua espera. Nas terras de um coração só se deve andar descalço, por mais que algumas vezes não tenha gravidade e isso nos faça flutuar, o solo é firme, e o terreno, por mais árido que seja, nunca será infértil. Para sua fertilidade nada mais que boas ações. As atitudes são como detrimentos deixados por uma enchente, que fertiliza em sua passagem e prepara o solo para receber os frutos que logo estarão por chegar. Das boas ações, adubadas com os bons sentimentos, nasce o amor. Dia desses, presenciei o cuidado de uma criança carente ao entrar em minha casa. Sem que pedisse, retirou as sandálias e seguiu seus passos com um sorriso leve. Não foi apenas cuidado, foi respeito, os chinelinhos pequeninos deixados à porta me encheram os olhos de lágrimas, afinal, quantas pessoas não mais retiram as sandálias? Elas entram na sua casa, na sua vida, sem saber onde estão pisando, sem respeito pelo seu lar, sem contato com o coração. Já não interessa mais se o solo é fértil, se a energia é boa, se o lugar é limpo. A casa é o solo sagrado de uma família, retirar as sandálias para pôr os pés no chão é deixar emanar as suas, ou receber as boas energias que o contato com o chão é capaz de transmitir. O solo de um coração é aonde se faz o sagrado, o entendimento da cifra que nos compete em querer amanhecer por terras firmes, realizados e fortificados por um habitat que passamos a vida inteira a procurar. Se queres encontrar o amor, retira as tuas sandálias e entra em um coração sem querer voltar a calçá-las, em terras que foram adubadas com bons sentimentos haverá sempre um bom lugar para plantar o seu jardim. Neste momento, deixo à porta as minhas sandálias e sigo com os pés no chão.