quarta-feira, junho 17

Cartas de amor não doem.

Felizes daqueles que se entorpeceram nas palavras de amor, que decoram seus amores com prosas, poesias, versos soltos dignificados pela personificação mais plena do romantismo. Cartas de amor.
Atesto para o mundo em que vivemos hoje o encantamento que fica quando recebemos um envelope marcado, um papel rabiscado, um cartão dedicado. Não há dúvidas, a emoção contida ao receber é evidente, tão clara como o brilho nos olhos de quem escreve.
Os sentimentos saltam a folha e chegam ao coração como se fosse mágica, é lindo de sentir,de adentrar àquele momento único e entender que tudo aquilo que ali está, foi escrito ao pensar em você, ao sentir saudades suas, ao querer penetrar um coração com transparência e gratidão.
Escrever e dedicar, ter a quem sustentar todo o seu romantismo impregnado de aromas é trazer a vida o significado da leveza, e por mais que seja triste, o amor consegue estabelecer vínculos, distancia-se da razão e afaga-se ao colo das lembranças, do que se deve ou não ser dito, mas que disposto em letras deixa que tudo flua ao azul do céu, tão azulado ou nublado mas consistente ao modo de amar. E como diria Carlos Drummond de Andrade: “amar e malamar, amar...”
O mundo contemporâneo trouxe uma idéia presunçosa sobre cartas de amor. Ao entregá-las você atestaria toda sua fraqueza, e, nos dias de hoje, atestar fraquezas é vergonhoso, piegas, distancia e não soa bem ser réu confesso da paixão. Mas, por traz do orgulho, da aparência, das mascaras casuais, encontramos gavetas, cadernos, doc’s recheados de palavras saltitantes, de corações que palpitam em cartas, músicas que ecoam dos apaixonados, solos românticos, poesias e sofreguidão. Amantes escondidos, desconfiados, entristecidos, mas cheios de palavras para dar.
Piegas é não demonstrar, é guardar para si o que a vida implora em simplicidade, ternura. Escrever o que se sente é a maneira mais honrosa de dignificar o outro, de colocar para fora o que te grita por dentro, é trazer a tona a essência, o que te compõe de fato. Reconhecer o que se sente nada tem a ver com atestar fraquezas.
Fraco é quem não mostra ao mundo o devaneio que o traz, é quem não assume para si e para quem quer que seja o quanto de amor há. Cada vez que escrevo não sinto que atesto minhas fraquezas, mas que as edifico, que solidifico as suas bases. E não me dói, ao contrario, me faz nascer um pouco mais.
Se as palavras te doem é pedido de alforria, elas querem soltar-se das correntes da alma e comandar a tua vida sem que haja resistência. Você e o amor podem viver de forma pacifica, sem implicância.
A honrosa missão que as cartas de amor nos trazem é provocar emoção, elas arrancam de dentro de si o real sentimento e se atestam não como fracas, mas como sentinelas dos momentos partilhados que te causaram toda essa vontade de dizer.
Cartas de amor não doem, o que dói é você deixar passar as palavras, o caos saudável que te gira por dentro e embrulha a barriga de tanto sentimento. A maneira mais lúdica de se demonstrar o amor é escrevendo. E, ao sentir seu coração doer saiba remediá-lo com palavras. Precisamos de poetas novos, contaminados de saudosismos e palavras à flor da pele.
No mundo em que vivemos onde os sentimentos são cada vez mais trancafiados no quarto escuro da solidão, as cartas de amor nos dão encantamento e coragem de poder seguir adiante no que faz a vida valer a pena. Precisamos delas para rasgar os sentidos e conjugar o amor que te invade e entorpece em estados maiores. As palavras de amor te esperam, e as minhas estão escancaradas nas linhas que se seguem.