domingo, outubro 28

Deixa secar.

A vida é dolorosa mesmo, faz a gente ralar o joelho, rasgar a camisa, sentir-se farrapos, maltrapilhas. Faz a gente deixar de existir por segundos. Sentir dor na alma, desengano no coração, tristeza no olhar e pouco riso na boca.

A vida tem julgamentos maldosos, injustos. Julgamentos feitos pelo conhecimento superficial do outro que teima achar que nos conhece por um único ato ou palavra. Faz a gente ser condenado sem, se quer, terem conhecimento de quem somos.

A vida tem o dissabor da expectativa frustrada. A gente aposta, acredita, espera, e, muitas vezes, somos recebidos com engano. Não somos bons portadores do esquecimento, mas aprendemos com facilidade a cultivar as mágoas.

A vida tem desavenças e descrença. Faz a gente tornar as pequenas brigas grandes coisas, e as grandes coisas, pouca coisa. Falta perdão, fé e verdade. Têm de sobra mágoas, tristezas, deslealdades.

A vida é difícil de encarar de frente. Faz a gente desviar o caminho e desaprender a seguir rente. Têm pedras, espinhos, folhas secas , orgulho, pouco cuidado, muito descuido.

Mas, a vida, que de tão dolorosa nos torna fortes, precisa ser notada por sua fragilidade. Se viver é breve, se o tempo é curto, a gente precisa optar por sentir as dores e levantar sem descuido.

Não engane o pranto destravando o riso, encare o delito, sinta as farpas e o desatino, mas se for para optar sentir o minuto incerto desse desvencilhar, não negue o encontro, nem deixe a alma no lixo, é melhor ter a certeza de ter sido alegre, mesmo que a vida tenha sido triste.

A vida é um conta gotas e quanto mais o tempo passa, mas ela acaba um pouquinho. Aceite a rosa, largue o espinho.

Luana Ferraz