sábado, junho 4

Ciladas afetivas



O susto com o improviso não sabe ponderar. Trata-se da delicada situação que não foi e não terá consentimento fácil. Da cabeça aos pés, aonde palpita apenas coração, há uma separação abusiva que separa, por meio de um casulo racional, a teoria da prática.
E, quando não separa, a prática come a teoria com todo o gosto e nos deixa no dia seguinte com a ressaca afetiva de querer arrancar o coração com as pontas dos dedos. Eu que sempre preguei a boa vizinhança com o coração, desejo que ele se dane para a primeira esquina e não volte tão cedo para o meu peito.
Caretice, acordo careta e permaneço até o meio dia com a certeza de que é isto o que quero. Não quero mais você perturbando o meu juízo pelo resto das horas seguintes. De fato, as outras horas seguintes você se instala no meu coração para fazer perder o juízo. Agora é ele quem vai à esquina, e você volta sorrateiramente para o meu coração.
Permaneceu por lá até o sono chegar. Acordei com o alvoroço da razão, que colocou a ponta pé o romantismo piegas da noite passada, me puxou à orelha e me fez perguntas azedas com pontos críticos. Passei uma manhã reflexiva e convicta que aquele seria o último encontro, a última ligação e palavra que te daria. Apaguei mais uma vez o telefone da agenda e prometi – mais uma vez – nunca mais (re) agendar.
Mas, a tarde me exala o teu cheiro, o sereno da noite me faz ter uma saudade abusiva e abusada de você. Pela décima vez redijo a mensagem, recuo. Você invade meu corpo espontaneamente, mesmo sem eu permitir. Meus pensamentos disparam e divagam a sensação de estar aprisionada por uma paixão extremamente passageira, daquelas que a gente entra com a certeza que não vai durar mais do que o auge da empolgação.
Essa ebulição afetiva me faz perder os juramentos e um pouco dos princípios que sempre preguei. Nessa mistura de sensações a 100°C, eu me vejo Clarice pela manhã, Caio Fernando à tarde, Nelson Rodrigues a meia noite. Um tipo de identidade camuflada em que a impiedosa vontade de ser feliz, de apostar no novo, nas ciladas afetivas que nos aparecem, me estimula a resistir, embora, a não desistir tão fácil do equivoco – certeiro – que me apetecem.
Eu que sempre tive tanta alma pra dar, reconhecer e amar, me sinto momentaneamente – porque assim eu desejo – carnal e um tanto quanto materialista, apesar de sentir meu coração em cada novo episodio da vida.