segunda-feira, março 2

Tenha a si, ao seu amor.

Chega uma hora na vida que é preciso retirar alguns disfarces, trocar certas fantasias que não trazem mais empolgação, nem alívio para um ego apenas massageado, momentaneamente disperso nas ilusões perdidas do passado. O cansaço final do pouco, do contentar-se em lidar com aquilo que não se busca, mas que por afeto, pela cegueira a qual nos dispomos, deixamos ser cada vez mais vazio, quando achamos estar preenchidos. São migalhas de um amor próprio flagelado, disposto, apenas, a permitir e a nada exigir. Quem está de fora da situação sempre enxerga melhor o caos. Mas do que adiantam os conselhos? Amanhã você estará a fazer tudo de novo, acreditando nas promessas de melhoras que não passam de dias e que, quando passam, têm sempre um cinismo, uma maneira de querer-se mostrar por cima. E você a mercê da boa vontade. Canse. Troque a fantasia, mude a cena, os personagens, todos os adornos que fazem você ser (sem perceber) essa pessoa mal amada, dilacerada por situações que você não merece. Torne apurados os cinco sentidos (e todos os outros) que há em você. Aperfeiçoe a sua capacidade de atrair o que é bom, ame-se. Sinta-se à vontade com o mundo que você vive. Permita SER, e não apenas ESTAR. Quando descobri que já era tarde, muito tarde, e que toda a fadiga era resultado de vários desgastes emocionais (indesejáveis, mas permitidos), antiquados para os meus dias, troquei o nariz de palhaço por um bom salto alto e seduzi não quem estava à minha volta, mas o meu amor próprio que havia deixado de lado há alguns meses. Em casa, na mesma caixa onde guardo todos os meus sonhos, encontrei-o lapidado, saltitante, querendo amar de verdade. É que na espera, ao invés dele cair na solidão (onde eu estava), ele preferiu apostar em nosso reencontro, pois só nesse caso marcado pude encontrar o que andava buscando.