domingo, março 15

Confissão.

O que foi preparado desvinculou-se muito cedo do amor que poderia existir. Não quis acompanhar seus passos, nem saber porque trajetória andaria aquele novo ser nessas terras quase vazias, permeáveis de sentimentos. Mas, chegou ao mundo depois de nove meses conturbados naquele lugar. Aquela luz em seus olhos alguma paz lhe traria. Se naquele exato momento soubesse falar, gritaria que não desejaria distância. Não lhe pediria muita coisa, se não uma mansa presença, um conforto de um abraço e um ser com sua função estabelecida. Não seria fácil naquela idade, mas fugir disso não há justificativas. A sua cor de pele, cabelo, olhos e todos os seus traços deixavam- lhe farta de ouvir que a genética não havia optado pelo lado materno tão claro, bem mais forte, frio, convalescente. De maneira hiperativa levou a infância com brincadeiras, castigos, um ser levado que optava por aventuras, refúgios, rebeldia e implicâncias. Quem saberia explicar aquela explosão de sentimentos, atitude dispersa, e as inúmeras terapias não entendidas, quem dirá do café receitado para fazer o contrário de suas energias. Nada adiantou, a não ser o tempo de sua própria vida. Não lhe fora retirado o direito de amar, mas também não entendia porque era tão difícil lhe entender. Logo cedo, apoderou-se das palavras para atestar o que sentia. Suas cartas eram recheadas de verdades, perdões e euforias. Aprendeu a dizer “eu te amo” muito cedo, embora poucas vezes tivesse escutado. Empenhou-se para que seu lado sonhador pudesse deixar de ser ridicularizado, e que alguém pudesse compreender a sensibilidade de sua alma. O seu lado humano devorador em defesas, em atitudes que no fim, acabavam sendo incompreendidas. Dividia o que por ela tivesse sido conquistado, e temia perder, perder pra ela já tinha sido demais. Não aceitaria ter que deixar ir novamente quem ela havia, principalmente, aprendido a amar. Suas confissões foram feitas muito mais agora do que antes. Na infância e adolescência guardava pra si e não se permitia dizer tão fácil. Havia se desenrolado sozinha, desde então, tocar nisso era inviável para sua vida tão bem resolvida. Por dentro um confronto de sensações e um olho que pedia pra entender as relações de amizade que estavam aos seu reador. Não entendia porque nunca quis aproximação. Mas ela tentou, embora não tenha conseguido guardar a sua fisionomia. Aos 13 anos ela tentou... Teve sorte do berço onde nascera, do patriarca que lhe emprestara à sua forma ao seu modo de amar, e de permite-lhe chamá-lo. A nova escolha de sua mãe também a fortalecia, embora toda a sua fragilidade se impregnasse nas justificativas que até hoje não vieram. A carência que lhe incomoda, o medo, a insegurança, e toda a cobrança que sem querer são feitas, principalmente no modo em que são colocados, transferidos os seus sentimentos. Por dentro, há feridas mal cicatrizadas que só podem ser curadas quando o abraço, a palavra, o amor e principalmente a verdade lhe forem ofertadas, por isso há o perdão, e a maneira que a gente tem de conseguir entender, por mais difícil que seja, o que o outro tem a dizer, mesmo com vinte e três anos de distância. Não haveria tantos pedidos assim, quem sabe nas voltas da escola, quando chegássemos em casa, ou dos passeios do shopping, das conversas, dos dias de domingo, dos aniversários e paparicos e dos traços do teu rosto que nunca me existiram, pudesse te beijar e desejar, que antes de tudo você fosse meu amigo, para que hoje, não pudesse cobrar tanto dos meus e nem tivesse tanto medo de perder as poucas pessoas que me deram a mão, e aprenderam a me amar do jeito que sou, sem desfigurar e temer a minha presença. Hoje o que restou foram as consequências, o encurralado medo que apavora qualquer aproximação que é ofertada. Se algum dia todo o silêncio incomodar, e a distancia que foi criada não for compreensível, te peço para que os pré-julgamentos sejam evitados. O meu modo arisco, racional, destemido de enfrentar a vida é o que me dar forças para sustentar meu coração descompensado, desvairado em sensações... Ainda te espero por aqui, e apesar de tudo, tenho orgulho dessa vida que me destes, embora, nem saibas...