quinta-feira, fevereiro 5

Solte a sua loucura.

A relação com a loucura sempre foi tensa. Sim, porque ela faz desvairar em ares muito mais leves, do que o habitual. Do que o corriqueiro que leva ao poço da hipocrisia em não assumi-la. Verdade mesmo, todos temos um lado louco, bem mais louco do que santo, que se afugenta nos lugares mais tocáveis. Mas o pudor, a cultura que nos desafia impõe limites para viver numa sociedade extremamente complexa. Quando sou louca me sinto mais eu, como se todos os resquícios do ilimitado se transformasse em um só e me deixasse a beira do fogo, de querer derreter sem voltar a se recompor. A loucura nos torna nômades. Não temos lugares fixos para dizer o endereço, não queremos ser encontrados, não desejamos ficar por nenhum instante e deixamos sermos levados pelo seu ritmo. À beira da loucura é o melhor lugar que encontramos para não se equilibrar por muito tempo, quem sabe, nem mesmo a gravidade exista. Durante o século XVIII a loucura se ligava à busca do intelecto, grandes idealistas se consumiam de uma maluquice sem tamanho, eram vistos como excêntricos, extravagantes, mas permitiam-se viver sem rotina, sem apego dentro de um sistema de absoluta imposição. Saint-Simon era um deles, um amalucado que apoderava-se de suas epifanias para viver sem rédea, que conduzia o desapego em palavras, propensas numa loucura completamente desregrada, onde se permitia viver. Quantos de nos temos um pouco da D. Maria Louca, da loucura solta de Clarice, do gosto extravagante de viver do Cazuza, do jeito despojado da Rita Lee, da loucura apaixonante de Gabriel Garcia Marques e tantas outras loucuras (des)humana como a de Hitle, ainda que sensível como a de Friedrich Nietzsche. Ser louco é despertar o intimo, é ser você nas brechas incontidas, nos seus pensamentos que incomodam, que regulam e que quando você a encontra soltam-se, vivem, por mais estúpida que sejam as sensações. Quando sentir a loucura chegar não traga camisa de força para ela. O que vos falo não é do lado perverso, do instinto de maldade e desamor que assola o mundo e traz tanta crueldade. É um encontro – paradoxoalmente- com a loucura sensata, aquela que permite você ser você, numa felicidade tão leviana e inocente ao ponto de ser perdoada.