quarta-feira, fevereiro 22

A obra da tristeza



Prevalece a nossa capacidade de reduzirmos o amor à nossa volta. Prevalece essa maneira temida de encarar o novo e conduzir com ele o infinito, a sonoridade da felicidade que habita espaços por tanto tempo.


Somos acostumados a nos darmos com a proeza da tristeza, não com sua “poiesis”, que significa saber que a sua obra vai além do prazer, ela está no reconhecimento instantâneo que apesar de nos agredir com suas pretensas, é capaz de nos ensinar infinitas cores. Eu somo o branco, o vermelho, o amarelo nos meus dias e ponho energia neles.

Somos fundadores de melancolia, perdemos inúmeras batalhas para o nosso sofrimento porque somos incapazes de criarmos vida nas perdas. A maioria de nós não fomos acostumados a perder, e condenamos a perda como um retrocesso da felicidade que nos abarcava, nos abraçava mesmo diante das faltas. Faltava tanta coisa, mas o apego era maior.

Acostumados a termos, esquecemos de quem somos. Queremos somar as nossas culpas no outro, justificar nossos erros no outro, identificar falhas no outro, que muitas vezes são nossas. Nos damos sentenças infundadas e nos afundamos na revolta e na vingança. O prazer não está na sua busca pela felicidade, mas o vê o outro ser infeliz.

Não somos aterrorizados pelo medo de estar sozinho, mas pela ausência de domínio e poder. Não somos mais amedrontados pela falta de amor, mas pela maneira física que a paixão rapidamente transformada em amor burlou etapas e nos trouxe comodismos, não felicidade.

Fomos largados na imaginação pontual de sermos vitimas do amor que não vem, do sossego que não se apresenta, da realização que não se aproxima. Esquecemos que a experiência é a principal maneira de nos fazer aprender com as dores, é preciso relevá-las, (re) significá-las para podermos nos apropriar da força, do novo e da comunhão que a vida nos oferece antes de tudo com a gente mesmo, depois com o outro.

Fui vitima de mim mesma por muito tempo, esquivei o agora com uma sentença injuriada de que as coisas deveriam ser amargas e notórias. Quando entendi que os prazos dos acontecimentos não dependiam apenas da continuidade da vida, mas dos meus esforços diários, passei a por os joelhos no chão e agradecer a proeza da dor, que apesar de ser amarga, me ajuda a fazer poesia e a querer ser cada vez um humano melhor.

Somos artesões das nossas sensações: a alegria molda o sorriso, a tristeza dá forma ao coração.