quinta-feira, setembro 22

VIDrAça



Todas as vezes que tenho a triste notícia da passagem de alguém conhecido para o lócus divino, este, no qual, passamos a vida tentando entender a sua forma descritiva de espaço, fico a pensar na fragilidade do tempo que nos dispuseram nesse plano terreno e nas suas advertências.

Somos constantemente advertidos por situações que nos propiciam conseqüências antagônicas de convivência. Estamos a todo tempo a nos aproximar, tanto quanto nos distanciar das pessoas por situações diversas. Por atropelos de interpretações, por divergências de opiniões, por falta de silêncio, pela demasia das palavras, por traição, por desrespeito ao próximo, por falta de paciência, pela ausência de flexibilidade e aceitação, pela falta de tempo. E, quando tomados pela informação da partida, da palavra morte, do não estar entre a gente, sentimos e percebemos que a delicadeza da existência, e a banalidade de algumas de nossas ações são tão pequenas e vulneráveis quanto a nossa existência.

Confesso a pequenez de alguns dos meus atos, da pratica corrente de propor distância para resolver situações que talvez fossem solucionadas pelo diálogo, e, digo talvez, porque não depende apenas de uma parte, as relações de modo geral são receptivas a dois seres que possuem diferentes personalidades. Do mesmo modo, para que não soe hipócrita, desde o tempo do Iluminismo somos dogmatizados pela ideia de liberdade, nossas decisões não são apenas passiveis de serem catequizadas pelo entendimento do perdão, e por sermos seres racionais somos capazes de aceitar essa distância sem querer qualquer reaproximação, por ser melhor assim, pelo mal estar que o outro é capaz de nos causar. Perdão e esquecimento não são ações fáceis de praticar, por isto, nos distanciamos com mais facilidade.

O cenário que tenho no eufemismo da morte é a imagem de balões no céu. A força do vento capta a partida e nos tira das mãos aquele frágil balão cheio de sentidos. Querer vencer o vento e buscá-lo às alturas é improvável, somos tomados pela aceitação e deixamos que ele possa ir, embora, o que desejamos é que ele continue a compor o cenário com sua significação, e mesmo que estejamos cientes de que o ar que compõe a sua beleza não durará por muito tempo, somos tentados a levá-lo para casa.

Não há como propor que as pessoas se transformem e aceitem uns aos outros para evitar o sentimento de remorso futuro, vivemos num mundo em que se tornaram necessárias algumas resignificações, num mundo em que a nossa chamada VIDrAça pode ser partida ao meio a qualquer momento, sem que os cacos se juntem novamente para formar alguns instantes. É preciso ter certeza das nossas decisões, avaliarmos quem somos, as nossas praticas, as nossas dores e quem de fato deve permanecer na nossa vida ou não, para que depois não seja tarde a certeza de um retorno, de um carinho que apenas tinha sido burlado pelo orgulho.

Eu hoje tentei pegar com todas as minhas forças um balão no céu, mas era muito tarde para voltar atrás. O vento o levou embora sem que eu tivesse percebido a minha tolice da não aproximação. De hoje em diante, enquanto eu puder, revalidarei as minhas distâncias. A vida é um ciclo de passagens, e cabe a nós ter a certeza de quem fica e de quem vai, para que possamos ter balões na memória sem nenhum tipo de remorso.