sábado, julho 2

Reencontro



Uma amiga, no auge de sua aflição, me contava do seu medo em reencontrar o ex amor que vinha de muito distante sem avisá-la, para uma conversa que poderia ser novamente a primeira ou a última depois de seis meses distantes.

Foram quatro de silêncio e quase dois de palavras trocadas. Ocorreram tentativas desesperadas para uma reconciliação, mas, para ela, a base do orgulho fincava as ações e as dores que foram silenciadas a ele, que por sinal, não teve direito a chances, nem desabafos. O seu erro justificava a ação completamente racionalizada dela. Deixou o tempo passar sem ouvir, na implicância com o seu coração de querer esquecer o que ainda não conseguia.

Mas, um verdadeiro amor, mesmo que o tempo passe, sempre incomoda, principalmente quando as coisas não foram resolvidas na base de um diálogo, do ponto final. Restaram, depois desses quatro meses as dúvidas, as lembranças e a saudade.

Tempos atrás, diante de um encontro inusitado desses, eu a aconselharia a ser - no mínimo- racional. A não se deixar levar por qualquer conversa fácil, nem se entregar a qualquer beijo momentâneo e cheio de ego. Diria que se possível, tornasse as promessas inaudíveis, filtrasse a fala e fosse fria, distante, falasse de tudo que estivesse distante do discurso meloso, típico das enfadonhas declarações. Sem o melo da paixão, de comprometimento ou saudade. O segredo seria ser forte, mesmo que em casa você se desabasse no choro e na vela.

Na verdade, aconselhei tudo diferente. De uns tempos pra cá tenho me perguntado do que vale agir dessa forma calculista, de nada espontânea, se não sabemos se o sol apontará para nós amanhã? Para quê se recolher no medo, se podemos tentar mais uma vez o que pede o coração, e ser feliz? Recomendei, sem muita propriedade, que ela fosse, e que se possível deixasse o orgulho em casa. Alma, corpo e coração desarmados.

A minha amiga é o tipo de ser humano reconhecível à sensibilidade, sofreu e apertou diversas vezes contra si o próprio coração, agiu contra a sua natureza, quanta força! E para nós, caros leitores, que costumeiramente acreditamos no amor, nada mais justo do que o deleite do encontro, do frio na barriga e de uma gama de expectativas positivas ou não.

Não há mais tempo para retrairmos o coração, se a injustiça perdura dentro dos nossos próprios sentimentos, se aprendemos a lutar contra nossas vontades, eu ouso fazer e aconselhar o diferente: Eu aposto na nova chance ao amor desgastado, na quinta chance da paixão reprimida, e na primeira tentativa das novas relações tão cheias de encanto.

Quando compreendemos a brevidade da vida, nós passamos a enxergá-la da maneira mais vital, sem querer ser rude com as esperas, com simplicidade e esperança de estarmos seguindo o caminho certo, mesmo que errado nos pareça.

Nesse encontro das vinte e uma horas do dia de hoje, eu desejo que a minha amiga seja bem menos forte do que tem sido, porque  foi preciso muita força para agir contra o coração durante todo esse tempo, e atestando sua fraqueza, ela poderá esvaziar o peito e dormir mais tranqüila, com a certeza de que tentar mais uma vez, não dói o quanto nós imaginamos. E que no fim das contas, se não der certo, de amor nós não morremos, apenas, nos revigoramos.

Boa sorte a ela, e a todos(as) que se permitem ao reencontro.


Corações desarmados.