segunda-feira, dezembro 6

A LEGALIDADE DO AMOR


A puta da sociedade foi quem nos pariu. E nesse parto nos causou uma indigestão de sentimentos confusos, colapsos de personalidades, rebeldias intransigentes e um séquito de pessoas enclausuradas à carência.
O mal de todos os séculos é o amor, não venha dizer que o XXI é o ápice de tudo, ele é conseqüência do devaneio torto dos séculos passados e da desilusão transfigurada num projeto de premissas e de espaços conquistados com a igualdade dos sexos. Agora, tudo está no mesmo patamar, não apenas do trabalho (conquista mais do que merecida por nós), mas da vulnerabilidade sentimental em que se tornou "todos" os seres (ser) que hoje também são estares (estar).
Se eles podem, nos também podemos. Discurso periférico. Nós não podíamos, nem devíamos termos entrado nesse jogo melindroso de vazio e fuga. Não podíamos ter apropriado os nossos corações para nos acostumarmos com o inferno, que como diria Sartre, tornaram-se os outros.
Os românticos, os sensíveis, os que ainda acreditam na capacidade regenerativa do amor, pagam ainda mais caro o preço do encontro, do desejo de partilha e de construção pela instituição mais valiosa de nossa classe: família.
Os cem anos de solidão, obra do Gabriel Garcia Marques se tornaria um livro propicio para os séculos, com cabeçalho entristecido e perverso de desabafos e entregas dolorosas. Eu diria que a minha contribuição começaria da seguinte maneira: "Não dá mais, e, mesmo assim, eu ainda acredito e quero o grande amor, o que eu não vivi, longe do conto de fadas e príncipes encantados, mas, perto do real". E é justamente nessa frase que eu me encontro com o "Amor líquido" de Zygmunt Baumam, "o amor deve sustentar-se por si mesmo". Eis o lado contemporâneo dos nossos relacionamentos. Então, deixa-me voltar para outro século? A outra era mais cortejada e esperançosa no quesito dois?
Vivemos sem o maior DEUS que existe, o AMOR, e nos tornamos atônitos com a quantidade de entregas supérfluas e conjugadas na primeira pessoa do singular. Quero o NÓS, com a complexidade dos planos e da comunhão de que um namoro não é apenas para namorar, é a chance que o destino te dar em tentar construir apenas UM futuro a DOIS.
Os fatos irão se repetir sem que você precise dar o aval, e este é o pior tipo de adultério. Copiamos do mundo o seu modelo de rebeldia e nos despedimos da coragem de lutar pelo grande antes mesmo de termos sentido a sua força. Definimos esse sentimento de maneira prematura, e ele não é apenas o frio na barriga, as sensações desordenadas que passam do coração a cabeça em rotatividade.
Não tenho certeza, nunca senti, mas creio que o amor de verdade seja permanência, seja a valorização do ser humano na sua indefinição, na tentativa, no crescimento conjunto de se estar ao lado e de ir fundo: estou contigo, se não der certo, a gente levanta e recomeça.
Embora, a puta da sociedade tenha tornado os encontros e a esperança numa orgia de sentimentos, continuarei na perversidade do meu romantismo, o paradoxo desse mundo em que as palavras tornaram-se contrárias as suas contextualizações.
A DROGA do AMOR tornou-se legal, talvez, se o fosse proibido, as pessoas teriam mais vontade de prová-la, de consumi-la na sua morosidade de sentir e esperar. A ilegalidade do amor traria uma hermenêutica mais audaciosa, seus significados não seriam tão banais o quanto hoje nos parece, e os homens, no seu conjunto de profanidade, enxergaria o amor de maneira mais sagrada, sem a espécie de quantidades que assombram os encontros à nossa volta.
Temer o amor é não se entregar por completo nesse mar profundo de entregas e deslizes.
Que o amor seja ILEGAL, não mais IMORAL.