quarta-feira, julho 2

Carta de amor (saudade)

Carta de amor (saudade);

Insistir comigo mesmo não vai adiantar, o orgulho vaidoso não consegue suprir a falta. Clamo por ausência, mas a presença ecoa fervorosa, não há sensação que amorne qualquer falta tua.

Que distância que nada, se fosse só isto eu já estaria nos céus, além das nuvens, por entre os satélites para sentir o teu abraço que me tira desse tempo frio que entristece a alma.

Queria poder estar aqui sozinha comigo, nesse barco furado em que terminei pelo avesso, descontrolada de tanto amor. Era pra ser e não foi, era pra estar e partiu, era pra ser paixão, mas foi amor. Como me aliviar dessa sensação vazia? Desse colapso que me tira de casa para não sentir a invasão do teu cheiro, se não passastes por aqui?

Devo estar louca, desequilibrada, envenenada de saudade, da falta que a tua ligação pela manhã me trazia ao primeiro bom dia, do meu costume em te ligar para saber onde estavas; se almoçou; se vem me vê; de saber que estavas chegando à minha porta, sem, se quer, escutar o barulho do carro.

Essa tua ausência embaralhou minha rotina, levou as cores do meu cotidiano para um barranco bem fundo, em que me atirar não me trará de volta a pintura dos teus olhos, nem a cor mais preciosa que tinha o seu sorriso, e é por isto que me dizem tanto para recomeçar.

É invasivo demais criar novos hábitos depois de anos ao teu lado, deixar o caderninho dos sonhos na gaveta e partir para as páginas em branco, quando, na verdade, tudo já estava planejado e escrito por nós, pelas boas lembranças do nosso encontro, do calor da nossa companhia que já era suficiente para mim, agora, já não mais para você.


Saudade é coisa daninha, um instrumento de ponta afiada que lança o peito e laça a gente de memórias, estou cuidando da minha retina, para enxergar melhor o fato, enxugar a ferida e, só assim, fortificar o meu coração. Enquanto eu não aprender a olhar para outros cantos e não te enxergar, vou continuar aqui, nesse hemisfério das lembranças, em que a sensação do passado não me levará a lugar nenhum se eu não souber recomeçar sozinha nesse meu presente.