quinta-feira, janeiro 9

Carta 1: Colocando os pingos nos is.

João Pessoa, 09 de Janeiro de 2013


Meu caro (não te reconheço mais),

Já era hora, todos percebiam, menos eu, que era vidrada em você, que me deixei tapar os olhos para todas as suas ausências. Quando não vinha, doía, mas não era pior que não te ter.
Eu me acostumei com o pouco, e até as vírgulas que você me trazia era motivo para que nunca pensasse no ponto final.
Você mudou, o comodismo da minha paixão deixou a nossa relação empoeirada, traças de realismo.  A gente sempre acha que é amor no inicio, e por isto aposta, arrisca, vai até à beira do penhasco, não ouve quem estar de fora, pois só queremos estar dentro, como quem não consegue dominar a vontade de querer estar junto, vinte e quatro horas no ar, em busca de alcançar o para sempre (que sempre acaba).
Foi assim que te conheci, grudado em mim, vestindo-me de carinho e respeito. Eu deveria ter percebido quando tudo começou a mudar, não sei se foi quando passamos a impor as nossas vozes, duelando para vê qual razão falava mais alto. Competíamos ausência sem querer. Eu não queria deixar de ligar, mas a verdade é que queria vê você vindo atrás de mim, pedindo desculpa, um beijo ou até um beliscão.
Voltava pra casa despedaçada, olhava o telefone de meia e meia hora, não, era menos, nem chegava há completar cinco minutos e eu já estava digitando uma nova mensagem para te enviar. O teu silêncio me matava, porque é verdade quando dizem que o desprezo corrói e quase mata, mas fiquei viva com tempo. O bloqueio do celular para rejeitar as tuas ligações não fazia mais sentido, hora depois estava eu desbloqueando e te atendendo.
Pela manhã eu já me sentia arrependida, era uma ressaca e uma concessão de promessas. Todos pediam para eu me amar mais, para não ir além ou aquém dos meus delírios, das minhas atitudes impensadas de agir pelo impulso. Esta é a minha drástica característica, a impulsividade, o meu espírito agressivo de dizer o que eu não queria, a minha carência mesquinha que me deixa chegar a este ponto, mendigar amor a quem não merece ter um pedacinho se quer do meu.
Mas uma hora a gente cai em si, a gente recupera as forças e toma a iniciativa de começar, pois hoje eu percebo que o recomeço é para quem iniciou alguma coisa, com você não pude nem isto, deixemos onde ficou, quero ter de volta o meu melhor, que sempre deixei no teu peito, nos teus olhos, na tua casa, em tuas mãos.
O telefone pode estar decorado, as memórias não são esquecidas tão fáceis, mas o meu amor pode ser construído a qualquer momento para me encorajar de novo com algumas reticências, e, certa hora, sem mais pontos finais.
Chega de interromper a minha felicidade, daqui para frente siga só, eu fico aqui no meu barco, criando coragem para ruir com a tempestade, vai passar, tudo isto vai passar.
Um dia tua, não mais...